Lealdade, agressividade e adestramento são o tripé sobre o qual se equilibra a relação urbano-ocidental entre humanos e cães. Apesar do cão ser considerado “o melhor amigo do homem”, a mídia tende a retratar agressões, ataques e mordidas como atos inerentemente violentos, enquanto adestradores vendem intervenções ideais para solucionar problemas de comportamento. Ao longo da história, a cultura da domesticação parece tentar adaptar um ser instintivo à posse humana, até mesmo com eventuais abandonos e devoluções de “pets”, quando não correspondem às expectativas do dono.
Esta concepção não abrange a diversidade de interações que existem: transformar cães em seres utilitários, seja para lazer, defesa ou companhia é uma prática que data do período Paleolítico, iniciado há mais de 35 mil anos. Deste ponto parte o ensaio de Flávio Ayrosa, biólogo e mestre em Psicologia Experimental pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP. Com o apoio do Laboratório de Etologia, Desenvolvimento e Interação Social (Ledis), o pesquisador reinterpretou paradigmas acerca do comportamento agressivo de cães, cujas individualidades são muitas vezes ignoradas.
Flávio explica que a agressividade foi escolhida como objeto de estudo pois tem relevância social, política e econômica. “O que faz a pessoa adotar versus comprar, as políticas públicas em relação aos cães, como acidentes refletem na opinião pública”, exemplifica o autor. Ele comenta que, para além do valor afetivo dos pets, a agressividade ainda é um tabu na sociedade. “Se um cachorro morde, todos pensam: ‘essa raça não pode, é um perigo’. Mas o que, nessa situação, é o perigo? Por que isso aconteceu? O cachorro é o único culpado? Existe uma agressividade inerente?”, questiona.
Fonte: https://jornal.usp.br/ciencias/agressividade-canina-sob-um-olhar-da-natureza-do-animal/