Na manhã desta quinta-feira (10), os economistas Guilherme Mercês, Marcelo Portugal e José Luiz Oreiro compartilharam observações sobre o atual cenário da economia brasileira com os empresários que participam do 38º Congresso Nacional de Sindicatos Empresariais (CNSE). O debate “Cenário Econômico: perspectivas e ameaças” foi mediado pelo presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Bens e Serviços do Recife, Frederico Penna Leal, e abriu a programação do segundo dia de evento.
Partindo de temas como o ambiente geopolítico internacional e o novo arcabouço fiscal, os convidados discutiram o futuro do varejo brasileiro. O objetivo foi oferecer um panorama atualizado para as lideranças sindicais que viajaram de todo o Brasil para o congresso, realizado pelo Sindicato do Comércio Varejista do Rio Grande do Norte (Sindilojas RN) e pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN), no Centro de Convenções de Natal.
Potências internacionais passam por desaceleração econômica
Um dos assuntos abordados no debate foi o cenário econômico internacional, que ainda reflete a crise causada pela pandemia de Covid-19 e a tensão gerada pelas guerras. Para o economista Guilherme Mercês, os negócios devem estar preparados para lidar com possíveis turbulências internacionais. “A gente saiu da crise, entrou na pandemia, depois veio a guerra. Essa situação não se resolve de uma hora para outra e temos de estar prontos para enfrentar choques e turbulências geopolíticas”, explicou Mercês.
Para Marcelo Portugal, o cenário internacional oferece riscos para o mercado brasileiro, mas também pode atrair grandes investimentos. “Sabemos que há uma briga, um conflito geopolítico, entre os EUA e a China. Logo, há também uma boa chance de trazer esse capital americano que iria para a China, aqui para o Brasil”, destacou. Segundo Mercês, “se o Brasil arrumar a política econômica e mostrar isso para o mundo, temos tudo para chamar a atenção de investidores e crescer muito”.
Inflação menor e geração de empregos deve aliviar negócios do varejo
Enquanto potências internacionais vivem momento marcado por alta dos juros e desaceleração econômica, o Brasil tem uma das menores inflações do mundo. De acordo com Guilherme Mercês, esse é um sinal de que as medidas adotadas pelo Banco Central tiveram um impacto positivo e devem provocar a queda de juros nos próximos meses. Para o economista, a perspectiva é positiva principalmente para famílias e empresas que se endividaram durante a crise sanitária iniciada em 2020.
“A pandemia causou uma queda acentuada de receita e de empregos. O resultado? Famílias e empresas se endividaram muito. O endividamento das famílias saiu de 60% para quase 80%. Tivemos um aperto no orçamento familiar, que explica essa baixa no consumo, principalmente no varejo. Com a queda da taxa de juros, a gente deve ver um alívio não só para as famílias, mas também para as empresas, que ficaram devendo bilhões em dívidas tributárias federais” explicou o economista Guilherme Mercês.
O saldo positivo na geração de empregos também colabora para um momento de otimismo no comércio, mas o convidado José Luis Oreiro aproveitou o espaço do debate para alertar sobre a qualidade dessa mão de obra. “De fato, a taxa de desocupação vem caindo. No primeiro trimestre o mercado de trabalho brasileiro tinha 107 milhões de postos de trabalho. A questão é que, destes, só 35 milhões eram empregos formais. Ou seja, a maior parte está sem carteira de trabalho assinada, sem direitos e garantias”, comentou o especialista.
Para Marcelo Portugal, essa perspectiva positiva também depende da manutenção dos pilares macroeconômicos por parte do governo e deve ser encarado com cautela. “Temos que tomar cuidado para não reduzir a taxa de juros rápido demais e ter problemas no futuro. Essa descompressão monetária, o remédio, tem de ser usado de forma que a doença não volte. Em julho, por exemplo, a inflação de julho deve ser baixa mais uma vez; mas muito pela manipulação dos preços, como a Petrobras vem fazendo com os combustíveis”.
Além disso, o economista também acredita que o impacto da agenda econômica adotada pelo governo brasileiro vai além das questões financeiras. “Os preços têm uma lógica e devem ser determinados pelo mercado, então acho que existe uma tendência razoável de perdermos esses pilares econômicos. A economia brasileira depende de renda e crédito, mas também de boas expectativas e vontade de comprar. Não adianta a pessoa ter dinheiro e crédito, mas achar que vai perder o emprego”, afirmou Marcelo.
Novo arcabouço fiscal pode aumentar gastos públicos
Outro tema central no debate foi a lei do Regime Fiscal Sustentável, também conhecido como arcabouço fiscal, que estabelece novas regras para a gestão do orçamento público. Para Marcelo Portugal, a medida é um retrocesso em relação ao teto de gastos. “A carga tributária vai subir, e alguém aqui vai ter que pagar mais imposto. Com o teto, os gastos públicos não podiam crescer mais que a inflação; agora, a tendência é que eles aumentem cada vez mais”, explicou o economista.
Fonte: Fecomércio