Quase metade das pessoas com depressão acaba desenvolvendo a forma resistente da doença, que não melhora após pelo menos dois tratamentos diferentes. Pesquisadores têm se engajado em fornecer uma resposta mais satisfatória a esses pacientes e seus familiares, que às vezes passam anos tentando diversas terapias e chegam a desistir, com custos individuais e coletivos. Uma nova gama de recursos vem sendo pesquisada, incluindo as chamadas terapias não farmacológicas.
Uma delas acaba de ganhar novo impulso após um estudo clínico feito na USP – a estimulação magnética transcraniana do tipo theta-burst. Por meio da técnica, grandes redes cerebrais são estimuladas com bobinas, em um protocolo que utiliza rajadas rápidas (theta-burst), mas em sessões de curta duração.
Enquanto pesquisas anteriores com esta terapia mostravam resultados promissores, porém preliminares, o protocolo empregado no estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) proporcionou melhora de quase 55% nos pacientes. Mais do que isso, na fase aberta do estudo (quando já se sabia que estavam sendo tratados e não recebendo placebo) os pacientes receberam sessões adicionais, e 85% dos que completaram o tratamento apresentaram melhora.
“A estimulação magnética transcraniana já tem 30 anos de uso, não é uma técnica experimental. Mas as taxas de resposta foram aumentando ao longo do tempo, com mudanças no protocolo de aplicação [intensidade, duração e frequência]”, conta ao Jornal da USP André Brunoni, professor associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e coordenador do estudo publicado na Jama Psychiatry, tendo Matheus Rassi Ramos como primeiro autor. “O tratamento em si é muito seguro, tolerável, não requer anestesia nem sedação, e praticamente não tem efeitos colaterais. A principal desvantagem é que o paciente precisa ir em uma clínica fazer a estimulação”, explica Brunoni.