Como os nossos pais? Ou podemos aprender com os erros e traumas para educar melhor nossos filhos? Conheça o pai de meninos e professor, Frederico Lima

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.” Como Os Nossos Pais (Belchior).

O refrão da canção “Como Nossos Pais”, escrita por Belchior em 1976, mesmo ano em que o tema foi gravado por Elis Regina, retrata para além do contexto histórico e social da época, um conflito geracional. Era como se os jovens fossem forçados a viver segundo os mesmos padrões conservadores da geração anterior, sentindo que a sua era fora roubada por entre os seus dedos. Também, e talvez por isso, a letra dessa música ainda faz bastante sentido mesmo tanto tempo depois.

Mas para além dessa que chamo de “Síndrome de Como Os Nossos Pais”, existem exemplos de famílias buscando romper com o ciclo de reprodução de comportamentos geracionais de educação e não desperdiçando as oportunidades em construir laços afetivos mais sadios através de uma linguagem não violenta entre pai e filho.

Essa tem sido a tônica dos dias na casa do professor Frederico Menezes de Lima (44 anos) desde que seus filhos chegaram. São dois meninos. Lucas com 12 anos e Artur com 3 anos e 5 meses. Sim, o paizão sabe até quantos meses tem o filho caçula. Frederico é professor de Português, Redação e Inglês, jornalista, escritor, tradutor e consultor em Língua Portuguesa. E apesar da jornada de trabalho extenuante, busca transmitir conceitos para a formação do caráter dos seus filhos diariamente e em cada interação. “Transmito, diariamente, valores como o respeito universal, o companheirismo, a fidelidade e, principalmente, a prática da não violência. Sou veemente contra a surra, a gritaria e os sermões. Defendo a democracia e o diálogo. Todas as formas de correção são explicadas e compreendidas. Sou contra os termos “Pai/Mãe Raiz” e “Pai/Mãe Nutella”, explica o pai.

Na rotina de atenção e cuidado também é possível observar as necessidades de adaptação a cada um dos filhos. Seja pela diferença de idade ou por características individuais, como detalha Frederico: “Luquinhas é autista. É necessário um cuidado muito acolhedor e afetuoso para que ele desenvolva as potencialidades de que necessita. Já Arturzinho tem conseguido ajudar Luquinhas em tudo, inclusive na interação social e comunicativa. Artur já entende, embora de forma inconsciente, as principais necessidades de Luquinhas”.

E assim Frederico vai conseguindo provar para si mesmo o quanto as surras que levou quando criança só serviram para ele nunca precisar castigar seus filhos. Uma atitude que encontra respaldo em pesquisa recente. Pesquisadores australianos associaram a palmada a um aumento nos problemas de saúde mental no início da idade adulta. O estudo da Universidade Católica Australiana descobriu que: seis em cada 10 indivíduos de uma amostra de 8,5 mil relataram ter apanhado dos pais ou responsáveis pelo menos quatro vezes durante seus primeiros anos.

“A intenção é encorajar pais, mães, cuidadores e cuidadoras a enxergarem as crianças de forma emotiva. Ainda que a emoção prevaleça, as regras precisam ser apresentadas. É a “regra emotiva”, defende o pai de Lucas e Artur.